A Crise da Narração… ou a Queda dos Monopólios Narrativos? Uma Resposta a Byung-Chul Han.

Por Clarissa Roldi

A Crise da Narração… ou a Queda dos Monopólios Narrativos? Uma Resposta a Byung-Chul Han.

Para Byung-Chul Han, narrar é uma prática que exige tempo, paciência e escuta. Ela tece vínculos e confere continuidade à existência, ao passo que a informação apenas acumula dados, sem gerar sentido. Para Han, a religião, os rituais e as tradições foram exemplos de grandes narrativas capazes de ancorar o ser, mas hoje vivemos em uma “época pós-narrativa”, na qual até o storytelling foi capturado pelo mercado como storyselling.

A obra percorre temas como a perda da experiência, a transformação da vida em mero dado digital, a atrofia do tempo narrativo e a captura capitalista da imaginação. Embora Han aponte para um diagnóstico de crise e perda, também sugere que a necessidade humana de narrar ressurge mesmo em meio ao mar de informações, ainda que de formas frágeis e superficiais. Em A Crise da Narração, ele investiga como a modernidade tardia, marcada pela sociedade da informação e do consumo, levou ao esvaziamento da narrativa como forma de dar sentido à vida. A narração, que antes transmitia experiências e orientava comunidades, teria sido substituída por uma enxurrada de informações fragmentadas, likes e choques digitais. Essa “crise”, contudo, pode ser examinada de forma mais crítica.

Han recorre a Heidegger para discutir temporalidade e experiência, mas não problematiza o contexto histórico de sua produção. Heidegger, além de filiado ao partido nazista, manteve relações de poder desiguais com sua pupila Hannah Arendt, filósofa de destaque citada por Han ao tratar da função integradora da narração frente a experiências traumáticas. É curioso como o autor, assim como muitos outros, convenientemente ignora as inclinações éticas e políticas de Heidegger, mantendo-o como referência incontestada.

Em contrapartida, a história das mulheres e de autoras críticas é apagada ou marginalizada. Figuras como Andrea Dworkin, Silvia Federici e Shulamith Firestone são frequentemente rotuladas de “controversas”, “radicais” ou “exageradas”, apesar de suas contribuições intelectuais fundamentais. Recentemente, Bell Hooks ganhou status de homofóbica em artigo publicado na Folha de S. Paulo.

Esse padrão evidencia como o cânone literário, acadêmico e filosófico historicamente protege certas vozes privilegiadas, conferindo-lhes o papel de narradoras hegemônicas, enquanto silencia outras que desafiam a ordem estabelecida. A partir disso, surge a questão: seria a chamada “crise da narração” realmente um problema, ou, antes, uma oportunidade de contestar monopólios narrativos e ampliar vozes historicamente silenciadas?

Han argumenta que o smartphone não constitui um meio de narração, na medida em que impede a escuta paciente que sustenta a comunidade narrativa. A comunicação digital, caracterizada por fragmentação e aceleração, teria produzido uma erosão da empatia. Contudo, é necessário relativizar esse diagnóstico. O smartphone pode ser compreendido menos como causa e mais como sintoma; as redes sociais expõem tendências de dessensibilização que já existiam na sociedade. Violências estruturais sempre corroeram a empatia humana.

Muito antes do advento dos smartphones ou mesmo da internet, o racismo, a misoginia, a intolerância religiosa, a colonização, a imposição de hierarquias sociais e a dizimação de culturas nativas em nome de uma suposta “civilização” já evidenciavam a carência de empatia.

A estigmatização de grupos considerados inferiores, como nos ideais nazistas, e a longa história da escravidão – analisada por Gerda Lerner em A Criação do Patriarcado (1986), ao mostrar como os homens “treinaram” para escravizar outros povos a partir da subjugação das mulheres ainda nos primórdios da formação do conceito de propriedade privada – reforçam essa perspectiva. Assim, ao examinar a trajetória da humanidade, torna-se inadequado atribuir a perda de empatia a um único fator, sobretudo a um elemento moderno. A era digital não criou este fenômeno, mas o tornou visível, revelando relações sociais que nunca foram universalmente narradas de forma solidária.

Han lamenta a perda das “grandes narrativas” que unificavam a vida. Mas é necessário perguntar: quem narrava?

As narrativas foram historicamente controladas por uma sociedade patriarcal e hierárquica. O que parecia coesão era também exclusão; mulheres, colonizados e dissidentes não eram narradores, mas narrados de forma submissa. A nostalgia por narrativas sólidas mascara essa violência estrutural.

Nesse ponto, a contribuição de Chimamanda Ngozi Adichie, em O Perigo de Uma História Única (2009), é fundamental: quando apenas um grupo detém o poder narrativo, ele reduz pessoas e culturas a uma única dimensão – como quando a África é contada apenas como continente de pobreza ou catástrofes. Assim como Han, Adichie reconhece o poder das narrativas, mas acrescenta uma crítica decisiva; narrar é também um ato de poder, e a suposta unidade narrativa pode, na verdade, ser mecanismo de silenciamento. Portanto, se Han vê a fragmentação como crise, Chimamanda mostra que ela pode ser também oportunidade de pluralizar vozes e corrigir os efeitos da história única.

Han afirma que a religião é uma narração com momento interno de verdade, capaz de transformar a contingência em destino e dar sentido a cada instante da vida – como no calendário cristão. De fato, as religiões estruturaram a vida coletiva e teceram narrativas que conferiam estabilidade. No entanto, essa estabilidade era obtida à custa da imposição dogmática e da exclusão. A religião organizava o tempo e o ser, mas também delimitava o que era permitido narrar e quem podia narrar. Narrativas religiosas deram origem tanto a experiências comunitárias quanto a regimes de violência contra “heréticos”, “infiéis” ou sujeitos considerados “desviantes”.

Idealizar a religião como modelo narrativo, portanto, ignora que, se por um lado ela “ancorava no ser”, por outro, prendia os indivíduos à autoridade e ao controle social. A crise da narração, nesse sentido, pode ser vista como oportunidade de escapar de narrativas totalizantes que sufocavam pluralidades de vida.

Apesar da crítica de Han à fragmentação digital, é preciso reconhecer que as redes sociais ampliaram a visibilidade dessas vozes historicamente silenciadas. Esses espaços digitais possibilitaram uma democratização sem precedentes da informação, permitindo, por exemplo, a mobilização cidadã no Brasil que contribuiu para barrar um golpe militar e viabilizou responsabilizações políticas significativas, como a condenação de um ex-presidente, cinco ex-ministros, um brigadeiro da marinha e um tenente-coronel.

Movimentos feministas, antirracistas, indígenas e LGBT encontraram nesses meios uma forma de disputar narrativas, denunciar violências e criar novas comunidades. A fragmentação, portanto, é ambígua: dissolve tradições de escuta paciente, mas também rompe o monopólio das grandes narrativas excludentes. Hoje, narrar é mais plural – ainda que submetido ao ruído do algoritmo e ao risco da mercantilização.

Han também identifica o nascimento do romance moderno como sintoma do declínio da narração. Para ele, quando a experiência deixa de ser transmitida coletivamente e se torna experiência individual – característica do romance – a narração começa a perder sua função comunitária. Mas essa visão ignora um aspecto crucial: o romance foi também um espaço de enunciação literária para mulheres. Como mostra Virginia Woolf em Um Teto Todo Seu (1929), as mulheres foram sistematicamente excluídas da tradição narrativa e acadêmica. Privadas de heranças, de bibliotecas, de tempo e de autonomia, não podiam escrever poesia épica, filosofia ou história. O romance, por exigir menos legitimidade acadêmica e mais proximidade com a vida doméstica, abriu uma fresta para que escritoras como Mary Shelley, Jane Austen, as irmãs Brontë e George Eliot (pseudônimo de Mary Ann Evans) pudessem escrever e serem lidas.

Portanto, reduzir o romance a um “sinal de decadência” é desconsiderar seu papel emancipatório. Ele foi uma das formas de resistência ao silenciamento imposto às mulheres em sociedades patriarcais. Se a “narração tradicional” estava em crise, era também porque havia sido, por séculos, um monopólio masculino. O romance não apenas deslocou a forma da narrativa, mas redistribuiu a voz. Longe de ser um sintoma de declínio, foi uma ruptura histórica que permitiu que sujeitos antes silenciados começassem a escrever sua própria experiência, algo que ecoa no argumento de Chimamanda sobre o perigo da história única.

Han também afirma que narrações não são compatíveis com informações, pois a primeira tece sentido e comunidade, enquanto a segunda apenas acumula dados fragmentários. Contudo, essa oposição é problemática. Em muitos casos, a informação não empobrece a narração, mas a aprofunda.

Um exemplo eloquente está no campo da narração religiosa. A Bíblia, enquanto narrativa fundante, foi capaz de transformar contingência em destino e gerar comunidades com propósito. Mas é preciso observar que essa mesma narrativa foi frequentemente usada como instrumento de exclusão e ódio. A leitura literalista da Bíblia, controlada por instituições religiosas, gerou comunidades coesas, mas também intolerantes, sustentadas por narrativas únicas sobre pecado, sexualidade e hierarquia de gênero.

É justamente nesse ponto que a informação se mostra indispensável. O trabalho de estudiosos como Daniel McClellan, autor de The Bible Says So: What We Get Right (and Wrong) About Scripture’s Most Controversial Issues (2025), ilustra como a pesquisa linguística e histórica fornece informações que reconfiguram narrativas herdadas, libertando-as de usos violentos. Através de suas redes sociais, McClellan faz um trabalho de combate à desinformação e má interpretação de textos bíblicos, enriquecendo a compreensão acerca destas narrativas.

McClellan mostra, por exemplo, que o conceito moderno de homossexualidade simplesmente não existia no mundo bíblico. Ao analisar o termo grego “arsenokoitai”, traduzido como “homossexuais”, ele explica que sua acepção é obscura e não corresponde às identidades sexuais contemporâneas.

No contexto social do mundo bíblico, a compreensão do sexo não se estruturava em torno da ideia moderna de um ato consensual entre partes autônomas, mas sim como uma prática marcada pela lógica da hierarquia social e de gênero. O ato sexual era concebido como a relação entre um agente ativo – o homem – e um agente passivo – a mulher -, desprovido de agência própria. Nesse quadro, a noção de consentimento era irrelevante, uma vez que o papel feminino estava socialmente associado à submissão e à receptividade (McClellan, 2025).

Assim, o sexo funcionava como reflexo e reforço da ordem social: o homem exercia o papel de sujeito ativo, enquanto a mulher ocupava a posição de objeto passivo, confirmando sua condição inferior. O que configurava crime, portanto, não era o ato consensual entre dois homens, mas a subjugação de um homem por outro, o que equivaleria a reduzi-lo à condição socialmente atribuída às mulheres. Nos registros mais antigos da literatura bíblica, as sanções recaíam não sobre o agente passivo, visto como vítima, mas sobre o agente ativo, considerado responsável por violar a hierarquia ao degradar um igual (McClellan, 2025).

A ausência de referências a relações sexuais entre mulheres reforça essa interpretação. Na lógica patriarcal vigente, não se concebia que uma mulher pudesse exercer poder de subjugação sobre outra, já que ambas eram entendidas como ocupantes de uma posição hierárquica inferior e destituídas de agência para inverter ou subverter essa ordem (McClellan, 2025).

A informação filológica, portanto, desmonta a narrativa usada por séculos para justificar a exclusão e a perseguição de pessoas LGBT.

Outro fenômeno relevante observado nas redes sociais é a desmistificação da maternidade. Por séculos, a maternidade foi construída como “personagem” de uma narrativa romantizada, articulada segundo interesses masculinos e patriarcais. Nesse contexto, a mãe sempre foi concebida nas histórias narradas como símbolo de pureza e auto-sacrifício, espelhando-se na figura da Virgem Maria. Historicamente, a representação social da mãe foi homogênea – um ser iluminado e passivo, destinado ao serviço e à obediência. Além disso, informações relativas à amamentação, à saúde materno-infantil e ao desenvolvimento das crianças permaneceram concentradas nas mãos de poucos detentores de conhecimento elitizado, restringindo e moldando a experiência da maternidade segundo prescrições externas.

Quando Han afirma que “nenhum storytelling seria capaz de reacender a fogueira em torno da qual as pessoas se reúnem e narram histórias umas às outras”, essa reflexão pode ser relacionada à consolidação de crenças e narrativas socialmente prejudiciais acerca da maternidade, que foram amplamente disseminadas e naturalizadas ao longo da história. Tais narrativas não apenas moldaram expectativas sociais sobre o papel da mulher, mas também estruturaram práticas coletivas que reforçaram desigualdades – como se observa, por exemplo, na mobilização de grupos em torno de ideologias extremistas e golpistas, que instrumentalizam imagens e discursos sobre família e autoridade para legitimar suas ações.

Atualmente, com a disseminação de informações no ambiente digital, observa-se um movimento de democratização do conhecimento, no qual mães compartilham experiências e acessam dados que lhes conferem autonomia, capacitando-as a atuar como sujeitos políticos capazes de reivindicar direitos para si e para seus filhos.

A amamentação, por exemplo, foi por muito tempo concebida como trabalho subalterno, frequentemente atribuído a amas de leite – muitas vezes mulheres escravizadas, cujos filhos eram retirados para alimentar os filhos das famílias dominantes, permitindo que as esposas permanecessem sexualmente disponíveis aos maridos. Posteriormente, consolidou-se na sociedade a narrativa de que a amamentação prolongada indicava instabilidade mental materna, enquanto o desmame precoce era fortemente incentivado pela comunidade médica.

Com a crescente disseminação de informações acessíveis no ambiente online, mulheres passaram a compreender a realidade da maternidade de forma crítica. Esse processo contribui para o desmonte das narrativas hegemônicas que por tanto tempo moldaram suas experiências, conferindo-lhes autonomia sobre suas histórias. Gradualmente, a mulher deixa de ser apenas um personagem sobre o qual se fala para se tornar narradora de sua própria trajetória, ressignificando sua posição social e política.

Assim, a informação, longe de se opor à narração, pode corrigir e enriquecer narrativas, evitando que se cristalizem em instrumentos de violência. A narração precisa da informação para não se reduzir a dogma, e a informação precisa da narração para ganhar densidade humana. Em outras palavras, é a interação entre ambas que permite construir narrativas plurais, críticas e inclusivas.

O ponto mais consistente da análise de Han está em sua crítica ao capitalismo contemporâneo, que transforma storytelling em storyselling. Narrar, que historicamente significava compartilhar experiências e construir vínculos comunitários, converte-se em recurso mercadológico: vender emoções, produtos e identidades. Essa captura neutraliza a potência originária da narração, reduzindo-a ao consumo de histórias prontas, desenhadas para suscitar engajamento e fidelidade a marcas ou plataformas.

Nesse sentido, Han evidencia uma ambiguidade própria da era digital. Por um lado, as redes sociais inauguraram novas formas de narração, oferecendo visibilidade e possibilidade de organização a grupos historicamente silenciados. Movimentos feministas, antirracistas e LGBT encontraram nesses espaços instrumentos para produzir narrativas alternativas às hegemônicas, constituindo comunidades de resistência. Por outro lado, o mesmo espaço que permitiu a insurgência narrativa foi rapidamente absorvido pela lógica neoliberal, que converteu essa pluralidade em novos nichos de consumo.

Um exemplo é o fenômeno do pink money, expressão que designa o poder de compra da população LGBT e a forma como o mercado apropriou-se de suas pautas. Marcas e corporações incorporam narrativas de diversidade e inclusão em campanhas publicitárias, sobretudo em datas como o “Mês do Orgulho”, sem, contudo, promover transformações estruturais que garantam direitos ou combatam discriminações. Discursos de emancipação são traduzidos em slogans, produtos e serviços voltados para públicos específicos, criando a ilusão de reconhecimento social por meio do consumo.

Essa dinâmica confirma a análise de Han sobre a captura capitalista da narração. Ao mesmo tempo em que a narrativa se torna ferramenta de empoderamento simbólico, ela é esvaziada de sua força crítica e integrada à engrenagem de acumulação. A promessa de autenticidade e de pertencimento se converte em mais uma modalidade de mercado, onde até mesmo a resistência é transformada em mercadoria.

Em outra obra de sua autoria, Topologia da Violência (2017), Han traz uma observação relevante:

“O sistema social ocidental gera, segundo Žižek, uma “enorme pressão” que obrigaria “nossas mulheres liberais a adotarem procedimentos de operações estético-cirúrgicas, fazerem implantes cosméticos ou injeções de botox para continuarem competitivas no mercado do livre-comércio sexual”[10]. Assim, a sociedade ocidental, na qual mulheres se submetem livremente à tortura de operações estéticas, não se distinguiria muito daquela sociedade africana que submete as mulheres à amputação dolorosa do clitóris.”

Esta reflexão de Han em Topologia da Violência ecoa diretamente com as problemáticas do feminismo mainstream, aliado ao capitalismo neoliberal e centrado no “empoderamento” individual e na “liberdade sexual” como mercadorias consumíveis.

Outro ponto relevante levantado por Han é a crítica ao regime contemporâneo de coleta massiva de dados e ao surgimento do “phono-sapiens”. Para o autor, essa figura substitui o homo sapiens narrador – que organizava experiências em histórias – por um sujeito capturado pelo smartphone e pelas plataformas digitais. O “phono-sapiens” não narra, mas registra compulsivamente, transformando a vida em dados permanentemente armazenados.

Nesse contexto, a narrativa dá lugar a um inconsciente digital: informações coletadas de maneira pré-reflexiva, sem mediação consciente, acessando até mesmo dimensões íntimas do sujeito. A promessa de autoconhecimento e memória perfeita não resulta em maior liberdade, mas em um regime de vigilância e controle, no qual cada gesto pode ser convertido em dado e antecipado por sistemas algorítmicos.

É nesse ponto que Han mobiliza o episódio The Entire History of You, da série Black Mirror. O dispositivo que permite gravar e reproduzir todas as lembranças não amplia a experiência narrativa, mas a aniquila. A memória deixa de ser interpretativa, seletiva e aberta ao esquecimento para se tornar registro transparente e integral. O resultado não é mais verdade ou sentido, mas uma obsessão paralisante, marcada pela impossibilidade de elaborar o vivido. Para Han, a memória só se torna humana quando narrada; quando reduzida a dado, ela perde a espessura temporal que permite o esquecimento, o perdão e a reconciliação.

O episódio citado não funciona apenas como alegoria distópica, mas como ilustração radical do perigo que Han identifica: uma vida reduzida ao registro absoluto, sem espaço para narração, imaginação ou criação de novos começos.

Contudo, é necessário acrescentar um contraponto. Se por um lado o registro absoluto e a coleta incessante de dados podem destruir a dimensão narrativa da memória, por outro, o registro também pode operar como ferramenta de proteção e resistência.

Em contextos de violência estrutural, registros digitais funcionam como instrumentos de prova e de denúncia. Gravações em vídeo, áudios ou mesmo históricos de mensagens têm sido fundamentais para documentar abusos policiais, práticas racistas, casos de assédio e violência doméstica. Ao contrário do que Han teme, nesses casos o registro não substitui a narrativa, mas a fortalece, oferecendo às vozes marginalizadas meios de validar publicamente suas histórias diante de instituições que, historicamente, desqualificaram seus testemunhos.

Além disso, a possibilidade de arquivar experiências pode contribuir para a preservação de memórias coletivas. Registros de comunidades indígenas, quilombolas ou movimentos sociais, quando apropriados por essas próprias comunidades, podem servir não apenas como defesa de seus direitos, mas também como formas de transmissão cultural que resistem ao apagamento promovido por narrativas hegemônicas.

Portanto, embora Han identifique corretamente os riscos de um regime de transparência total e de vigilância algorítmica, é importante reconhecer a ambivalência do registro. Ele pode ser instrumento de controle e alienação, mas também recurso de empoderamento político e memorial, especialmente quando apropriado de maneira crítica.

Embora Han levante pontos válidos e necessários sobre a “crise da narração”, sua análise carece de um olhar “do outro lado”. Ao enfatizar os riscos da fragmentação, da digitalização e da mercantilização da narrativa, o autor acaba adotando uma perspectiva predominantemente pessimista, marcada por certo saudosismo em relação a formas tradicionais de narrar. O que falta é considerar as brechas criadas nesse mesmo processo – os modos como as tecnologias digitais, a circulação de informações e a pluralização das vozes também abrem oportunidades para contestar hegemonias e ampliar o espaço do narrar. A crítica de Han é precisa ao diagnosticar perdas, mas incompleta ao não reconhecer as possibilidades transformadoras que emergem justamente dessa crise.

“Viver é narrar”, afirma Han; “a narração tem o poder de um novo começo. Toda ação que transforma o mundo pressupõe uma narração”. De fato, a capacidade narrativa é constitutiva da condição humana: desde a infância, ao aprender a falar, já exercitamos o dom de contar histórias, organizando o caos da experiência em enredos compreensíveis. Para Han, quando a narrativa entra em crise, a própria possibilidade de sentido e de comunidade se encontra ameaçada.

Contudo, um olhar crítico permite reinterpretar essa “crise” não apenas como ameaça, mas também como oportunidade histórica. A fragmentação narrativa contemporânea pode ser compreendida como ruptura necessária com narrativas únicas, totalizantes e excludentes. Se antes a coesão era garantida pela imposição de uma voz hegemônica – masculina, branca, patriarcal, eurocêntrica -, hoje a crise da narração abre espaço para que vozes marginalizadas passem a disputar legitimidade no campo do narrar.

Dessa forma, a chamada “crise da narração” pode ser entendida não apenas como sintoma da dissolução da comunidade, mas também como ruptura criadora. Afinal, revolução não se faz em silêncio; ela exige a reconfiguração dos modos de narrar, a inserção de novos sujeitos e a disputa pelo direito de dizer o mundo. Assim, aquilo que Han entende como perda pode ser reinterpretado – não como tragédia, mas como reapropriação política do narrar.

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