O Violino
Estavam três bardos a caminhar,
Pela trilha do riacho em um despreocupado andar
Um com seu alaúde, outro com sua flauta.
Mas o terceiro, coitado, encontrava-se em falta.
Este chorava pela perda de seu violino,
Como quem já não crê no próprio destino,
Cantava a melodia amarga de sua aflição
Que ganhava, cada vez mais, tom de obsessão
“O que um pobre bardo há de fazer
Se o seu mais valioso talento
A única fonte de seu sustento
Na bela manhã de primavera,
simplesmente desaparecer?
Oh, meus caros amigos,
Que nesta trilha de lamentos
Se põe a andar comigo
O que farei com estes sentimentos?”
Andavam há dias procurando uma taverna para dormir
Onde pudessem também trabalhar e comer
E pensavam, sem muito se afligir
No que poderiam fazer.
Agradeciam o calor da primavera
E em suas capas dormiam com acalento
Mas dominados pela fome
Se arrastavam em passos lentos
À beira do riacho avistaram um movimento
E diante de uma possibilidade, se colocaram atentos
Uma donzela se despia, preparando-se para banhar.
Na pedra deixou suas roupas e num pulo se permitiu afundar
Alheia aos olhos que a observavam
Brincava na água, sem ideia do que a aguardava
Esbaldava-se no frescor das gotas que a abraçavam
Sorria, dançava e mergulhava.
“Ora, ora, mas prestem atenção!
Parece que os deuses ouviram
Os sussurros do meu coração.
Se em vós não resta internamente um dilema
Vejo à frente a solução para o nosso problema.”
Os três bardos trocaram olhares cúmplices e sorriram
Sorrateiramente, aproximaram-se da donzela
Planejaram, então, o que fariam
Daquela moça que lhes parecia tão singela
“O que faz aqui a tal hora uma donzela sozinha?
Não deveria estar em casa a ocupar-se com a cozinha?”
Assustada e alerta à má fé,
A donzela pôs-se de pé
Cobrindo seus seios com as mãos
Sustentou o olhar dos andarilhos
E enunciou sem hesitação:
“Há uma grande riqueza que posso vos oferecer
Todo ouro que puderem carregar
Pelas estradas, podem levar!
Pois não é neste bosque que desejo perecer.”
Os bardos se puseram a gargalhar,
Caçoando da jovem e direcionando a ela
Todos os insultos que conseguiam pensar.
Gritavam palavras odiosas e obscenas sem pestanejar.
“Não queremos ouro ou nenhuma outra riqueza
Nós, bardos, não nos importamos com tal pobreza
É a fome que precisamos saciar
E é você, donzela, quem irá nos ajudar.”
A destemida donzela não se permitiu abalar
E, de cabeça erguida, continuou a falar:
“Para o que querem eu não terei serventia,
Aceitem o ouro e sigam viagem.
Certamente ele é de mais valia
E para vós, é de maior vantagem.”
E o bardo que ria,
Com um tom de escárnio dizia:
“Eu dou a você a seguinte opção:
Saia da água voluntariamente,
Ou venha por um puxão.”
A donzela se recusou a ceder;
Fincou os pés no fundo do rio
E negou-se aos comandos de homens obedecer
Os bardos gargalharam
Com escárnio e risos vazios
Presa fácil não teria tanta graça
Quanto a conquista de um desafio
A donzela manteve-se firme dentro do rio,
Sustentou-lhes o olhar, não deu nem mais um pio.
Nem súplica, nem pranto, nem voz concedeu,
No silêncio obstinado, jamais se rendeu.
Os bardos, entre risos, fingiram desdém,
Como quem já decidiu o destino de alguém.
Sem aviso, um deles avançou pela água fria
E a puxou pelos cabelos numa brutal covardia.
Ela gritou, chutou e arranhou
E perversidade foi a única coisa que encontrou
O segundo bardo a chutou com violência,
Quebrou seus ossos sem qualquer clemência.
O terceiro a arrastou, cantando em harmonia,
Enquanto seus gritos clamavam em agonia.
Os três bardos a arrastaram
Para o bosque mais distante
Com braços firmes a lançaram
Na pedra afiada e brilhante.
Na pedra de lume, seu corpo cedeu,
E o som do impacto o bosque rompeu.
As aves pousaram, o vento cessou,
A própria mata, alheia, se calou
Seu grito, abrupto, no ar se quebrou,
E um silêncio pesado o espaço tomou.
Restava somente uma cruel melodia:
O assobio constante do bardo que ria.
O sangue escorria, tingindo o chão,
Absorvido lento pela escuridão.
Seus olhos, vazios, perderam o ser,
E a pele já lívida começou a morrer.
Frio cadáver, sem mais alento
Na melodia do bardo, sequer um tormento
Enquanto ali uma vida se esvaía
O bosque, calado, consentia.
Os bardos montaram um pequeno acampamento.
Em volta do fogo, em mórbido contento
Com um único golpe, preciso e profundo,
Do pescoço ao ventre rasgaram seu mundo.
Sem pausa, sem rito, sem qualquer pesar,
Começaram seu corpo em partes separar.
Arrancaram-lhe os membros com força brutal,
Braços e pernas num gesto banal.
E ali, entre risos, num ato desumano,
Desossaram a carne, sem erro ou engano
Sem piedade alguma,
Os bardos famintos riam em coro
Juntaram galhos secos, em forma de espeto
E a carne crepitava sobre o fogo
Não bastava tirar-lhe a capacidade de respirar;
Não satisfeitos, arrancaram-lhe também a chance de amar.
Sem pestanejo ou hesitação,
Arrancaram da donzela, primeiro, seu coração.
Serviram-se então de seus pulmões
Agradecendo aos deuses por terem atendido suas orações.
Outrora foram fonte de um poderoso cantar,
Agora incapazes de sequer suspirar.
Abastaram-se de suas entranhas – rins e intestinos,
Um a um, levados para um cruel destino.
Fígado e estômago, nem a bexiga escapou;
Órgão por órgão, cada bardo um pedaço devorou.
Arrancaram-lhe, então, seus músculos, a começar pelas ancas
Riam e zombavam de mulheres que nunca foram santas.
E num ímpeto puramente atroz,
Fizeram questão de cortar sua garganta
Afinal, que falta faria a ela uma voz?
Em puro regozijo e sem um pingo de angústia,
Cada parte do corpo dela, um terceiro consumia
E o que uma vez era a forma de uma mulher
Em meio ao festejo, desaparecia.
Conforme animais perfeitamente racionais
Lúcidos, em plenas faculdades mentais
Como chamam mesmo essas atrocidades normais?
Creio que são os tais… “crimes passionais”.
Por último deixaram seu útero, o prato principal do jantar.
A tão invejada fonte de vida, que fazia a boca aguar.
Dilacerado, repartido em três partes para seu bel prazer;
O que um dia fora, o que era, e o que jamais viria a ser.
Despiram-na de toda sua humanidade
E, por fim, o último resquício de sua dignidade
Lamberam os dedos e se puseram a cantarolar
Não permitiram que nada fosse um desperdício.
Aos homens, o direito de se abastar
E do que fora mulher, não se tinha nem resquício.
Restavam, então, os ossos.
E o bardo viu ali uma oportunidade
Para o esqueleto que não teria outra utilidade.
“Mas que belo será meu novo violino!
Com a ossada da dama que nos trouxe fartura
Tenho a certeza de que não haverá som mais lindo!”
Da costela, o tampo surgiu,
A mandíbula em cavalete se ergueu.
Os braços em espelho e arco brilharam.
E dos dedos, cravelhas ele construiu.
Cabelos em cordas, crânio em voluta,
A espinha, ossos que a estrutura sustentam.
O bardo, feliz, pulou em festa absoluta.
Saciados, seguiram a trilha,
Cantarolando à beira do rio.
Do que fizeram não restou vestígio
Na taverna, chegaram sem nenhum desvio.
No salão lotado, bebidas tomaram,
Entre risos e gritos, o barulho cresceu.
E ali, decididos, os bardos tocaram;
No calor da noite, a música nasceu.
O flautista começou, leve e cortante,
O alaúde seguiu, firme e pulsante,
Palmas batiam, marcando o compasso,
E vozes surgiram, tomando o espaço.
O violinista então subiu ao palco,
Reverenciou a plateia, num gesto peculiar
Exibiu seu violino, curioso e singular.
E, com um pigarro, começou a tocar.
Quando as cerdas tocaram, uma voz se ergueu,
E dos olhos curiosos a atenção prendeu
Melodiosa e alta, a taverna se calou.
E o bardo, hipnotizado, continuou.
A melodia cresceu e sussurros surgiam,
Sons que, aos poucos, em palavras se distinguiam
O violino, vivo, ninguém podia acreditar
A seguinte melodia se pôs a cantar:
Estavam três bardos a caminhar
Famintos e sedentos, não puderam esperar
Encontraram uma donzela, à beira do riacho
E sem dó ou piedade, puxaram-na pelos cachos
Pela terra enxovalhada eles a arrastaram
E com seu corpo e sua alma, eles se abastaram
No ímpeto de saciar seu vaidoso prazer
Sentiram-se no direito de suas fomes satisfazer
A donzela implorou e tentou sua liberdade comprar
Mas nem todas as moedas de ouro a poderiam salvar
Pois uma vez determinados, não há nenhum acalento
Nas garras cruéis de homens violentos
Com o sopro que lhe resta da vida, ela se põe a cantar
Agarrando-se a uma inocente esperança
De quem ainda carrega a alma de uma criança:
Quem irá a morte da donzela vingar?
O silêncio que seguiu a canção,
Ninguém ousou quebrar.
Atônitos e inertes, incrédulos e sem reação
Por alguns pouco segundos, pensaram no que tinham ouvido
E por um instante questionaram se aquilo faria algum sentido
Olhares paralisados, fixos no violino de ossos;
Perguntaram-se, “o que faríamos se fosse um dos nossos?”
Por um breve momento se ouviu o som da empatia
Mas todas sabemos que a comoção não sobreviveria
As expressões abismadas
Aos poucos voltavam à normalidade da apatia
E os bardos seguiram caminho
Voltando com seus feitos do dia a dia.
O violino foi deixado no canto da taverna até virar pó;
Esquecido, negligenciado e completamente só.
Talvez, e possivelmente, foi a conformidade pela normalidade de tal situação.
O lamento desta donzela, de fato, fora em vão.
Como tudo aquilo que se aprende a ignorar,
O eco segue vivo — quem irá escutar?